Crônicas de Velm

Livro I: O Silêncio

Capítulo 1: O silêncio

A última coisa que Daniel Reis pensou foi que estava cansado.

Não era tristeza. As pessoas queriam que fosse tristeza, e ele entendia a vontade delas, porque tristeza tinha porta de entrada e porta de saída, tinha causa e por isso tinha cura e por isso tinha um fim possível. O que ele tinha não tinha porta nenhuma. O que ele tinha era um barulho. O mundo entrando alto demais, a luz que furava, o tecido que raspava, as vozes rápidas, e por baixo do barulho do mundo um segundo barulho, mais fundo, este vindo de dentro da própria cabeça, e este nunca, em trinta e três anos, nunca uma vez, tinha parado.

Ele tinha lutado. Isso ninguém ia medir direito, e ele já tinha feito as pazes com não medirem. Lutou anos, com remédio e com médico, contando o sono, anotando as horas boas, porque ele era assim, organizava até a própria salvação numa tabela. E houve horas boas. Ele se segurou nelas como quem se segura numa pedra no meio do rio. Mas o rio era mais fundo do que ele e mais longo do que qualquer braço, e todo braço tem um fim, e o fim do dele chegou numa madrugada que não tinha nada de especial, o que talvez seja a coisa mais terrível de se contar, que chegou numa madrugada qualquer.

Não foi coragem e não foi covardia. Foi cansaço, foi uma doença ganhando devagar uma guerra que vinha ganhando havia muito, e a mente que os professores chamaram de brilhante, a mente que via o esqueleto secreto das coisas e não conseguia atravessar uma tarde, essa mente baixou os braços. E a última coisa que Daniel pensou foi que estava cansado. E a penúltima foi uma esperança fina, fina como fio de cabelo, fina como quase nada: a esperança de que do outro lado houvesse silêncio.

Houve.

Não há como contar a travessia. Ninguém voltou para emprestar as palavras. O que houve, se é que houve em alguma ordem: o barulho parou. Não diminuiu. Parou. E onde ele estava agora havia tanto espaço, tanto, que por um tempo que não era tempo Daniel foi apenas o espaço, sem corpo para doer, sem mundo para entrar gritando, só a forma limpa de uma consciência boiando num escuro morno que não pesava. Era a primeira vez que ele coube em algum lugar. O lugar era o nada, e ele coube.

E então o nada começou a respirar.

Foi assim que ele contou, depois, quando teve as palavras de volta: como se o nada tivesse pulmões. Uma maré veio e foi, veio e foi, e cada vez que vinha trazia um calor que não vinha de fora, um calor que o atravessava de dentro para fora. O nome dele ele aprenderia mais tarde, na boca de outra gente, em outra língua. Sopro. Por ora era só a maré, e a maré apertou.

O morno virou aperto. O aperto virou pressão. A pressão virou um corredor estreito de força empurrando sem pedir, e pela primeira vez em tanto tempo Daniel sentiu medo, e o medo era de bicho, era de corpo, e era tão simples e tão sem pensamento que era quase bom, quase alegre, porque um medo assim só existe quando existe um corpo para ter medo, e um corpo só existe quando existe um depois. Havia um lá fora. Havia um para onde. Havia, de novo, contra tudo, um próximo instante.

Ele foi empurrado para dentro dele.

A luz, quando veio, não machucou.

Veio fraca e alaranjada, fendida entre frestas de uma parede de barro, com poeira de ouro boiando dentro dela, e bateu nos olhos novos sem faca. Sem agulha. Sem aquele branco que entrava na testa dele como prego a vida inteira. Era só luz. Era só bonita. E uma coisa anterior à alegria, a coisa de onde a alegria nasce, subiu dentro do corpo minúsculo, e o corpo minúsculo chorou, porque é assim que todo recém-nascido faz, e no choro havia berro de bebê e havia, no fundo do berro, um homem de trinta e três anos chorando porque a luz não doía.

Mãos o ergueram. Mãos grandes e ásperas de trabalho, e quentes, e tremendo. Encostaram ele num peito que batia rápido, e o peito disse uma coisa numa língua que ele não sabia e mesmo assim entendeu, porque algumas coisas vêm antes da língua, são mais velhas que a língua. O peito disse: você chegou. O peito disse: você é meu. Era voz de mulher, rachada de esforço, alagada de uma alegria sem fundo, e repetia uma palavra molhada, de novo, de novo, e a palavra era para ele, e ainda não tinha tradução, era só toda a ternura do mundo apertada dentro de um som.

E Daniel, que numa vida inteira mal suportou que o tocassem, que recuava de um abraço como se recua de fio desencapado, porque para ele um abraço era informação a mais num corpo que já recebia informação demais, Daniel ficou. Ficou ali, na curva quente daquele braço. E não recuou.

Não havia barulho.

Ele esperou por ele. Esperou do jeito que se espera a dor de dente que sempre volta, o corpinho de guarda, atento, tenso. Esperou o mundo entrar gritando. Esperou o segundo barulho, o de dentro, aquele que nunca parou uma vez na vida, esperou a luz virar prego e o som virar lâmina e o pensamento virar enxame.

Nada veio.

Havia a luz alaranjada, morna. Havia o cheiro de palha, de fumaça, de leite, de barro molhado. Havia o coração da mulher batendo mais devagar agora, acalmando, e o coração dele indo atrás, devagar, devagar, aprendendo com o dela como se acalma. E havia uma cabeça, a dele, que pela primeira vez desde sempre estava vazia de tudo menos do instante em que ele estava. E o instante era bom. Daniel tinha apagado essa palavra do seu vocabulário fazia tanto tempo que custou a reconhecê-la, e era ela, era bom, e era verdade.

Foi aí que ele soube, do fundo de um corpo que ainda nem segurava a própria cabeça, que não estava sonhando e não estava morto. Que aquilo era um começo. Que de um jeito que ele levaria metade de uma vida nova só para começar a explicar, tinha sido tirado do lugar que o machucava e posto num lugar onde a mesma cabeça, a sua, a mesmíssima, podia apenas existir sem sangrar. A cabeça era a mesma. Isso ele ainda não entendia, só pressentia, mas pressentia com o corpo todo: a cabeça era a mesma, e o que tinha mudado era o lugar onde a puseram.

O homem grande chegou perto. Daniel sentiu antes de ver, sentiu pelo cheiro de suor e de metal, pelo calor de outro corpo, pelo modo como a luz mudou quando ele se debruçou. Um rosto largo, barbado, jovem e já gasto, e os olhos vermelhos, e nos olhos uma coisa que Daniel conhecia bem da outra vida, porque tinha visto nos olhos da própria mãe nas noites ruins. Mas aqui a coisa dizia o contrário. Aqui dizia: graças. Aqui dizia: ele é perfeito. O homem estendeu um dedo, um só, calejado e enorme, e encostou de leve na mão minúscula, e a mão minúscula se fechou em volta dele por puro instinto, e o homem riu, e o riso arrebentou no meio num soluço, e ele disse algo para a mulher, e a mulher riu também, os dois rindo e chorando ao mesmo tempo em cima daquela vida pequena que eles ainda não sabiam de onde tinha vindo.

Daniel não sabia os nomes deles. Levaria semanas para juntar os sons, do jeito paciente com que ele juntava tudo, escutando, guardando, montando peça por peça, porque era assim que ele amava o mundo, entendendo-o. Mas algo nele, mais velho que qualquer nome, já sabia o que aquelas duas pessoas eram. Eram o pai e a mãe dele. E o amavam desde antes de ele fazer qualquer coisa para merecer, o amavam só por ter chegado, e isso também Daniel Reis nunca tinha tido, e Edrin, que era como o mundo o chamaria dali a três dias, teria a vida inteira.

A casa era um cômodo só, de barro e palha, com um fogo no meio e um furo no teto para a fumaça que cumpria mal a sua tarefa. Mais tarde ele saberia todos os nomes, e juntar os nomes seria uma das primeiras felicidades: a aldeia se chamava Cinzal, o reino se chamava Vendril, o homem era Joran e a mulher era Mára, e o mundo inteiro, embaixo de um céu que não era o seu, se chamava Velm. Por ora não havia nome para nada. Havia o fogo. Havia o leite. Havia o sono, que vinha sem medo, e o acordar, que vinha sem aquele aperto no peito que durante trinta e três anos tornou cada manhã uma coisa a ser atravessada.

Ele dormia muito, como bebê dorme, e era o melhor sono da sua existência inteira, porque era a primeira vez que o sono era descanso e não era fuga. Acordava, e havia um rosto. Chorava, e alguém vinha. Tinha fome, e a fome era saciada, e a fome saciada é uma das formas mais antigas e mais esquecidas da felicidade. Era tudo tão simples. Era tudo tão brutalmente simples que às vezes, no escuro, dentro daquela cabeça nova e limpa, ele era atravessado por uma raiva velha e fina, e a raiva perguntava: era só isso? Era só isto que bastava? Toda aquela guerra, todos aqueles anos, e do outro lado da morte o que havia era um teto de palha furada e dois pobres segurando ele no colo, e era suficiente, e era mais que suficiente, e era o paraíso?

A raiva passava. Passava sempre, e isso também era novo, que as coisas passassem, que uma coisa ruim chegasse, fizesse o que tinha de fazer e fosse embora em vez de ficar morando. E no lugar onde a raiva estivera ficava uma coisa quieta. Não era felicidade ainda. Felicidade seria depois, construída devagar, ano sobre ano, da festa da colheita ao rio do lado bom do vale ao primeiro irmão que ele veria nascer. O que ficava agora, nas primeiras noites de uma vida nova, era a terra onde a felicidade ia ser plantada.

Era paz.

Daniel Reis atravessou uma vida inteira sem nunca tê-la, nem por um dia, nem por uma hora. Edrin de Cinzal nasceu dentro dela. E por oito anos não saberia que existia qualquer outro jeito de se estar vivo.

Do lado de fora, a meia légua da última casa, depois do rio e do trigo e do pasto, a terra mudava de cor. Ficava pálida. Nada crescia ali, e os velhos ensinavam as crianças a não chegar perto, e ninguém falava muito a respeito, porque já estava ali desde o avô do avô, e o que está ali desde o avô do avô deixa de ser perigo e vira paisagem. Naquela noite, como em toda noite havia séculos, a terra pálida respirou a sua respiração lenta, e cresceu, do jeito que crescia, um palmo a cada geração, mais perto da aldeia que dormia.

Ninguém viu. Era só paisagem. É sempre só paisagem, a dívida, até o dia em que deixa de ser.

E dentro da casa de barro, no calor do fogo, no braço da mãe, um homem que um dia quis morrer dormia o seu primeiro sono sem medo. E sorria sem saber que sorria. E tinha, à sua frente, oito anos inteiros de paraíso, antes que o mundo viesse cobrar a conta que ninguém ali, naquela noite, sabia que estava sendo feita.